Tente se lembrar qual foi a ultima vez em que você foi solidário com alguém.
Penso que nosso mundo atual nos afasta do verdadeiro contato humano. Além do trabalho e dos afazeres cotidianos, o contexto da crise, da insegurança e outras coisas mais se transformam em desculpas verdadeiras para olhar cada vez menos para os que estão a nossa volta. Somam-se a isso ambientes corporativos em que os valores continuam sendo apenas um quadro na parede e um discurso não praticado.
Esta semana vivenciei uma situação que despertou em mim alguns questionamentos acerca de como as desculpas verdadeiras que citei acima tem me afastado de mim mesma, de meus valores e da minha essência. Sim, acontece comigo também e me incomoda bastante.
Eu estava de saída do velório do pai de uma amiga. Ela merecia um abraço, muita solidariedade e apoio e não apenas uma mensagem pelo Facebook. Na saída, caminhando em direção ao estacionamento, duas senhoras aparentando beirar os 80 anos andavam à minha frente. Não as ultrapassei, não precisava ter pressa e a situação da minha amiga me convidava a algumas reflexões para as quais aproveitei a breve caminhada até o carro. Observei que as senhoras perguntaram algo para um taxista próximo e continuaram a andar. Desviei o caminho, peguei meu carro e, na saída do cemitério, lá estavam as duas com seus passos miúdos, caminhando em direção ao portão externo. Claro que na hora pensei que elas iam para a rua procurar um taxi ou pedir ao porteiro que chamasse algum pra elas. Poderia ter ido embora, mas parei o carro e me ofereci para leva-las. Algumas negativas e agradecimentos, convenci-as de que para mim não seria trabalho algum. O caminho com elas no carro, à parte a situação que levou ao nosso encontro, foi leve e prazeroso. Deixei-as na porta de suas casas. Desci, abri a porta, ajudei-as a sair do carro e retomei meu rumo.
Que sensação maravilhosa eu tinha dentro de mim! Ter sido útil. Útil para pessoas que até não precisavam de muito, mas que naquele momento, aquele pouco fez diferença para elas. Fiz diferença pra elas. Porque então não faço mais? Porque não fazemos mais?
Perdemos muito com isso. Perdemos experiências de troca, de aprendizado, e, por que não, experiências de espiritualidade. Para mim, o exercício da espiritualidade passa primeiramente pelos meus valores, pelo ensinamento dos mesmos às minhas filhas e, claro, por atitudes coerentes e congruentes com os mesmos. Nem sempre é fácil.
Minhas dificuldades em exercer a empatia e a solidariedade cotidianamente são bem traduzidas nas quatro grandes barreiras conceituadas por Roman Krznaric em O Poder da Empatia. O Preconceito, a Autoridade, a Distancia e a Negação. Me vejo apegada a estereótipos e generalizações acerca das pessoas, às vezes demoro a desafiar as autoridades para tomar atitudes que considero corretas, evito assistir às propagandas dos Médicos Sem Fronteiras e à reportagens sobre guerra e, por tudo isso, vou negando minha culpa ou responsabilidade em fazer alguma coisa pelos outros.
Quatro obstáculos maiores pra uns do que pra outros, mas não impossíveis de serem superados. No nosso dia a dia, várias pequenas oportunidades de exercitarmos nossa empatia surgem muitas vezes em situações corriqueiras mas também em situações inusitadas.
Nas ruas, nos restaurantes, no transito, em nossa casa e nosso trabalho. Onde há outras pessoas, há oportunidades. No nosso egocentrismo, deixamos de ver, ouvir e de nos solidarizar com o outro.
Em tempos onde palavras como sentido, propósito e respeito à diversidade são ditas aos quatro ventos, te convido a vivencia-las, dia a dia, em pequenas doses.
Comece ao acordar amanhã e olhar de um jeito diferente para os que estão a sua volta. Repare na expressão corporal, vá além do automático “bom dia” (artigo cada vez mais raro até mesmo nos elevadores do prédio em que moramos), reflita sobre suas atitudes com seus familiares, amigos, colegas de trabalho e desconhecidos. Basicamente se pergunte se o que você fez ou está fazendo pode fazer bem para alguém ou, no mínimo, não prejudicar, e se desvencilhe dos velhos “o que ganho em troca” , “não vou ganhar nada com isso”, “não vai fazer diferença”. Quem tem que perceber e receber alguma coisa é o outro, é ele quem está precisando.
Pelas palavras de Cora Coralina, segue uma inspiração…
“O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher.”
…para o dia em que você pode ser melhor do que foi hoje.